Solidão no Casamento

Uma coisa é saber que você foi traído, que lhe trocaram por alguém supostamente mais interessante e a relação se acabou. Você chora, até se descontrola e precisa de um tempo para retomar a vida normal e perceber que é necessário construir o que restou da vida, ainda que sozinho, para seguir adiante.


A solidão pode vir também de uma grande viagem, de uma ausência necessária devido a trabalho ou algum outro fator do cônjuge, do/a companheiro/a. Lá vai. Menos mal. Nada que um telefonema, uma comunicação qualquer não ajude a superar.


Mas quando a solidão está presente em casais Casadinhos da Silva? No início tudo eram flores (tudo bem, nem tanto assim!). Tudo maravilhoso… até que os dois, ainda que na mesma cama, não se encontram. Nem na cama, nem na mesa, nem na sala, nem nos olhares, nem em sorrisos, em nada.


Um acorda antes do outro, toma seu rápido café da manhã, vai para o outro lado da cidade, trabalhar. O outro, ao acordar, cuida de seu próprio almoço e segue sua vida solitária de gente casada. Um finge para o outro que tudo está bem, mas o intruso vazio está ali, latente, presente, provocando o frio e doloroso silêncio diário.


Sim. Estou falando de casais que moram na mesma casa, compartilham até mesmo uma só cama mas estão sozinhos. Fato curioso este. De vez em quando são vistos, em silêncio, de mãos dadas na pracinha. Mas a distância entre eles está ali, presente, corroendo as veias de um relacionamento que já se foi embora ninguém ainda tenha percebido. Ou tenha tido coragem de falar: “o que é que há?”


O casal percebe que há algo de errado com eles, mas o avanço tecnológico distrai os dois. Chegam do trabalho e vão ver seu Orkut, seu Facebook. Tem o Twitter também. Ou vão cuidar dos filhos, da casa, da roupa. Da comida do dia seguinte. E o silêncio está ali, presente. Nenhum olhar, nenhum: “como foi seu dia?”, nada.


Há um poeta infantil que, em sua música, tenta definir solidão como sendo “sentimento de que o mundo se acabou. Todo mundo foi embora só a gente que ficou…” É quase isso o que acontece: “Cada qual no seu canto sofrendo seu tanto.” Só. Apenas só.


E o homem e a mulher, que são seres sociais, por definição e por essência, que buscaram a relação com o/a outra/a para amenizar a dor de sua própria existência, para ter mais beleza e alegria na vida, se vê, de novo, sozinho. Assim como se sentiram sozinhos ao nascer, ficando agora pela primeira vez longe daquela barriguinha quentinha e acolhedora.


Vivemos num tempo em que as relações afetivas exigem mais maturidade e menos intenção de controle sobre as pessoas. Elas precisam de liberdade. Ao mesmo tempo, quando convido o outro para compartilhar com ele minha vida, estou também permitindo que ele, junto comigo, hospede a eternidade.


Nessa relação, já dizia o Dr. Flávio Gikovate, deve existir individualismo, respeito, prazer de estar junto com o outro. Não uma relação de quase ou absoluta dependência como era no tempo de nossos pais. Hoje em dia as pessoas tem sede de autonomia. E autonomia e convivência mútua e respeitosa são questões que se harmonizam entre si.


Ou seja: é possível viver minha própria vida quando o outro, ao meu lado, e junto comigo, amorosamente vive também sua individualidade, sua existência e compartilhamos alegrias, tristezas, doenças, pobreza, riqueza. Estar junto é muito bom. Viver em companhia é uma delícia.


Ninguém é solução para minha felicidade. A ninguém cabe o peso de ser minha metade, meu outro pedaço. Isso não é fácil tarefa. Somos pessoas inteiras (apesar de inacabadas, em construção de identidade etc) não uma metade. Não preciso, como dizem, do “outro lado da laranja” para me sentir completo. Já sou uma pessoa completa, inteira. Quem estiver ao meu lado será companheiro/a de jornada, cúmplice nas experiências da vida.


Talvez a palavra apropriada e necessária aqui seja: PARCERIA. Parceiro/a de caminhada. Pessoa com quem convivo e vivo em reverência, respeito, paixão, desejo e amor. Mas um outro que, como eu, tem direito a errar e a desviar o caminho, a ser gente, posto que é gente como eu sou. Que tem direito a querer estar sozinho, mas por opção. Não porque lhe nego um copo d’água, uma conversa, um olhar, o meu amor sincero e maduro.


E se aos poucos a gente fosse pensando que é mais importante desejar o outro do que ter necessidade dele? E se o invés de meu obrigatório companheiro ele se tornasse meu amigo, meu parceiro de caminhada?


Aprender a conviver comigo mesmo para depois saber lidar com as fragilidades e até incapacidades ou potencialidades do outro é uma boa pedida para as relações afetivas atuais e suas exigências modernas.


Estar casado e ser só é coisa sofrida. Sim. Mas a pior solidão é aquela em que a pessoa está longe de si mesma e não consegue ser, para si, a companhia ideal.


Conhecer-se a si mesmo/a e gostar de si mesmo/a será um bom remédio para tanto ter alegria e desejo de viver quanto para atrair o parceiro para seu universo individual, que depois de vivido junto, será um lugar de novo gostoso de se viver.


Em casa, na rua, no trabalho, onde quer que se esteja a vida assim será boa, agradável.


Ser é o bastante. Faz melhor sentido o que nosso velho Quintana sinalizava: “Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.” Essa premissa, posto que sirva para nossa subjetividade, valerá também para a nossa vida com o outro.



Aos meus amigos solteiros

Sou suspeita para falar sobre o assunto, posto que ainda sou solteira mas tenho (sic) umas dicas quase psicanalistas para minhas amigas e meus amigos solteiros a fim de que eles tenham êxito em seus futuros relacionamentos e saiam do encalho.

Tenho amigos e amigas interessantes, bem sucedidos, bonitos, profissionais com futuro garantido, gente de muita prosperidade mas que não têm êxito nessa área do amor.

Quero, neste texto, pontuar algumas pendências que eles precisam resolver para, enfim, conquistarem sua princesa ou seu príncipe encantado.

É necessário ter a convicção de que estar sozinho é algo muito bom. Procurar o outro porque não suporta nem sua própria companhia é algo comprometedor pois ninguém merece ficar com alguém que nem de si mesmo gosta. Alguém que não tenha o que falar para si próprio, que não tenha coragem de fazer uma pipoquinha para comer sozinho, desfrutando de sua própria pessoa, alguém que não tem papo consigo mesmo não terá o que compartilhar com o outro e aí bye bye… poderá ficar fadado à solidão o resto da vida.

Tratar o outro como tábua de salvação também está ligado à idéia acima. Ninguém é salvador de ninguém. Não há uma pessoa sequer na vida que possa redimir você de seu calabouço existencial a menos que você queria dar um passo além de si mesma e se libertar emocional e intimamente. Então, amigos e amigas: seu par não é sua mãe nem seu pai. Ele/ela não tem obrigação de lidar com seus mimos e manias e ainda ter paciência, tolerância. Seria bom que tivesse, mas até que chegue o amor – aquele sentimento que é também ação – de fato, isso não vai se dar mesmo. Suas neuras podem ser resolvidas num consultório psicanalítico. Não no seu namoro ou em suas amizades potencialmente próprias para namoro.

Se arrumar com exagero também é outro ponto que, principalmente entre as mulheres me intriga. Tenho amigas e conhecidas – isso digo especialmente para mulheres – que parecem uma árvore de natal. Bem de longe você já as enxerga com cores provocantes, tipo ‘cheguei!’. Cheias de penduricalhos, joias para todos os lados, maquiagem exagerada. Unhas sempre impecáveis. Gente que dá pena de pegar. Eu fico com pena dos homens nessa situação. Eles devem criar sobre elas o mito de que não são pessoas. São objetos cristalizados dos quais, se chegarem perto, se quebram. “È melhor manter distância”, penso que concluem. Não faço aqui apologia a não se arrumar, a desleixo. Falo de tentar ser o mais discreta possível.

Eu tinha um colega Advogado que usava óculos caríssimos de sol, com a lente espelhada e azul. Ele era e é um fofo. Nos dias de chuva ele usava um sobretudo imenso preto. Era uma figura de outro mundo. Se destacava entre nós. Fulano chegou, todo mundo olhava. Curiosamente ele não tinha muito sucesso entre as mulheres, embora fosse muito bem sucedido e inteligente.

Outra coisa que questiono sempre é o fato de pessoas solteiras quererem sair em grupo. Talvez elas pensem: eu não estarei sozinha nesse ou naquele ambiente. Cinco, seis, sete meninas estão coladas umas às outras num ambiente qualquer. Pense comigo: que coragem você – menino ou menina – teria de chegar-se a alguém por quem tenha se interessado se ele/ela está cercado por outras pessoas? Quem seriam essas outras pessoas? Elas me aceitariam em seu grupo? Ou me mandariam sair de perto fazendo-me ‘pagar mico’?

Em resumo: poucas pessoas chegam junto de quem está muito bem acompanhado/a.

É lógico que a vida é muito mais ampla do que esse quadro que agora pinto. Claro que há pessoas que não estão mais sozinhas e sempre foram e fizeram tudo isso que aponto como algo negativo acima. A existência da gente é dinâmica e seu par poderá estar aqui mesmo, ao seu lado. Torço que sim! Que quando menos você espere já chegue seu/sua parceiro/a e que seja para toda a vida.