O beijo da Times Square


Beijo-te em despedida, nem posso crer!

Volto pra casa…

Se te estranho, não te conheço, que me importa?!

Regressar me faz tão bem…

Olha o céu! Só há paz

Não mais guerra ao redor

Isso basta, nos beijemos!

Esse dia é de amor

Muita festa, tanto riso

Sinto alívio que é sem fim

Há ternura em um soldado!

Tu bem sabes que meu coração ferido

Beija-te naturalmente: és minha cura provisória

Não mais nos veremos (e nos vimos antes?)

Beijo-te naturalmente: és minha cura.

Obs.: Inspiro-me no beijo do soldado da marinha norte-americana em uma enfermeira, no fim da II Guerra Mundial. Eles não se conheciam! Esta é uma famosa fotografia de Victor Jorgensen e foi tirada em 14 de Agosto de 1945.

O belo é efêmero

BÉSAME MUCHO (Luiz Miguel)

Bésame, bésame mucho / Como si fuera esta la noche la última vez

Bésame, bésame mucho / que tengo miedo a perderte / perderte después

Quiero tenerte muy cerca / mirarme en tus ojos /verte junto a mí / Piensa que tal vez mañana
yo ya estaré lejos / muy lejos de aquí.

Bésame, bésame mucho…”

Há um temor latente nesse texto.

Para mim, seu tema principal não é o Beijo.

Ela trata da efemeridade do belo. Da angústia de, com pouco tempo, não ter mais por perto aquela que lhe ama.

Perpassa pelo pensamento do poeta uma espécie de medo.

O temor de perder o objeto do que lhe produz vida.

Claro! Beijar é bom. É excitante.

Porém aqui o Luiz Miguel parece não tratar apenas do prazer, da descarga de endorfina que o beijo produz no corpo da gente.

Provavelmente ele deixe de lado o tema da felicidade preferindo falar da angústia da possibilidade de daqui a alguns instantes não mais contar com a presença do ser amado.

É como se ele quisesse afirmar que , de alguma forma, através daquele ritual, o beijo, ele mantivesse a proximidade. Assim, perpetuariam a ternura, a beleza e a alegria daquele momento passageiro.

Há algo de sagrado aqui.

Entendo que o que Évora pretende ao cantar Bésame Mucho, passa por essa temática.

Em Cantiga Triste, Sobre o Tempo e a EternaIdade, Rubem Alves também pontuou: “Você não entende porque a gente chora diante da beleza? A resposta é simples. Ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de eternidade. Tudo o que a gente ama a gente deseja que permaneça para sempre.”

É como o poeta português Fernando Pessoa descreve numa carta de amor à Dona Ophélia Queiroz, sua namorada:

“Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.”

Para os brasileirinhos de plantão, tive o cuidado de traduzir a canção:

Beija-me!

Beija-me, beija-me muito
Como se esta noite fosse
a última vez

Beija-me, beija-me muito
Que tenho medo de te perder
De te perder depois.

Quero te ter bem perto
Olhar-me em seus olhos
Te ver junto a mim
Pensa que talvez amanhã
Eu já estarei longe
Muito longe daqui.