Virou lugar comum falar que a família é o núcleo da sociedade. E, de fato, é assim mesmo. Mas independente dos diversos arranjos familiares, podemos distinguir dois movimentos claramente distintos que marcam a família nos últimos dias, especialmente por causa do efeito do capitalismo sobre a mesma.
Num primeiro movimento vejo que a família vai se fechando em si mesma. Ela se tranca em sua própria casa, até por causa da da insegurança, da violência urbana (além de outros fatores) e aproveita a possibilidade da diversão interna onde a TV, os celulares e a internet são o centro.
De um modo geral os pais se preocupam com os filhos. Os filhos, com o bem estar dos pais. Preocupam-se se estão bem alimentados, se estão com saúde, se está tudo bem. Pronto. Bastam esses ítens para se pensar: “minha família, minha vida”.
É a família para dentro. Todo mundo num mesmo teto, entendendo que ‘para cá’, ensimesmados, estamos protegidos dos perigos, dos desafios, das diferenças. Coisa típica desses últimos tempos em que o outro é sempre visto como inimigo, como meu concorrente, como meu adversário.
O outro, o vizinho, é aquele ser estranho que vive de outro jeito, normalmente compreendido por mim como ‘errado’ e que não me vale muito. “Eu não me misturo, não me perco, não me desgasto”, é o que parecem pensar.
O outro movimento da família atual é ainda mais intrigante e é um desdobramento do que citei anteriormente: apesar de estarmos voltados para dentro, a gente consegue ser mais amável, afável e agradável com as pessoas de fora. Com amigos, com nossos líderes, professores, gerentes, empregadores. Raramente tratamos os de dentro de casa com o mesmo amor, com a mesma tolerância, com a mesma gentileza.
É contraditório que queiramos o bem material (digamos assim) dos de nossa família quando o abraço, o apoio incondicional, a troca esteja sendo mais generosamente presente com os de fora, do que com os de dentro. É como se nossa tolerância tivesse um limite definido exatamente além das quatro paredes de minha casa.
É comum vermos famílias inteiras sem terem o que falar um com o outro, sem afinidades, sem o olhar livre e cúmplice pois a vida cotidiana trouxe-lhes alguma mágoa nunca tratada, alguma dor nunca perdoada e um perdão nunca liberado.
Viagens, boas escolas, roupas bonitas e presentes são garantidos aos nossos filhos. Tanto quanto podemos. O ouvido atencioso, o abraço acolhedor, o olhar que percebe se há algo de errado, as trocas verdadeiras e carinhosas são coisas mais raras.
Parece que a gente está absolutamente inclinado a entender que o que se pode tocar, o que é material, o que pode ser medido é o que de fato vale.
Amor não se encontra em qualquer prateleira para se comprar. Caso fosse assim, para muita gente seria mais fácil lidar com essas questões todas e ter a família integrada, saudável emocionalmente e feliz. Ia lá, comprava e, pronto. Tudo resolvido.
Que nossos relacionamentos sejam mais leves, agradáveis. Que o olho no olho queira dizer “te gosto” e de fato diga isso.
Que nossa humanidade seja mais humana. A começar de dentro de minha casa. E que reverbere para os de fora, pois isso nos fará bem.
Que eu aprenda a construir minhas relações interpessoais com a maior saúde possível, tendo como reflexo o que aprendi no meu berço, dentro de minha casa.
E que, em minha casa, de fato, haja o sincero sentimento de família. Sentimento vivido, experimentado, materializado em respeito, aceitação, perdão e tolerância. Além de diálogo.
Movimento gostoso, livre a acolhedor para dentro e para fora.
Excelente artigo! Gosto da sabedoria ponderada e carinhosa dos seus textos. São sempre otimistas, esperançosos, docemente críticos e muito propositivos… Sempre uma análise calma e serena, na verdade quase uma descrição acompanhada de uma resenha sutil! Nós, seus leitores, estamos muito bem agraciados!
Obrigada pelo carinho, amigo.